O silencioso canto das aves migratórias

O silencioso canto das aves migratórias

terça-feira, 4 de abril de 2017

Nada se vê da cidade estremunhada, sopra uma brisa lenta, um beijo, uma carícia no asfalto. 
Os homens perderam - se nas crateras da vida. De um lado e do outro da ponte, o vazio e o silêncio ! 
Sós, as árvores encolhem os ramos, despojadas do vigor da primavera tardia. 
Chove uma chuva miudinha, não há sons, nem as andorinhas atravessaram ainda o oceano. 
A cidade acorda, a brisa fria da madrugada, estende um manto de sedutora solidão. 

São Gonçalves.
Sinto o silêncio da cidade dentro do templo onde, refugiada das sombras me esqueço. 
O mundo tornou -se demasiado grande para quem procura o alimento da alma. 
Entre mim e a cidade, entre mim e os homens, uma fronteira de cortinas impedem os sons de atingir o interior do altar. 
Agora, apenas a solidão inunda o espaço, e a sombra amena de um sol a a afugentar os murmúrios da noite. 

São Gonçalves

Foto -Rosa Mouzinho Santos.
Há quanto tempo estou para aqui esquecida das gentes e do mundo?
Já pouco ou nada resta deste pedaço de ferro, enferrujado, acidificado com a passagem dos anos, ao sol, a chuva, ao frio.
Ainda me lembro, quando pela manhã a água fresca enchia-me as entranhas, depois, as caricias das labaredas a crepitar a lamberem- me o corpo, devagar, aromas de árvores silvestres a transformar o líquido fresco em combustão ardente.
Legumes, carne de porco salgada, uns bagos de arroz!
E era uma alegria ver os homens e as crianças regalarem-se com esse manjar que saíra das minhas entranhas! E eu observava!
Matei a fome indizível do lavrador, do ferreiro, do mestre, da mãe e da criança.
A todos afaguei os ventres cansados e doridos
De vazios e solidões!
Tempos de labuta, tempo das grandes fomes!
Depois, chegou a modernidade, as cozinhas revestiram-se de novos utensílios.
Eu por ali fui ficando
Utilizavam-me para aquecer a água, para de vez em quando, ainda cozinhar a memória da fome e da fartura.
A memória da fome!
A memória dos sabores e aromas da infância, daqueles que partiram para longe, e chegavam depois, sedentos do passado.
Um dia atiraram- me para aqui,
Ainda servi como vaso para plantar umas plantas, salsa, alecrim, rosmaninho, uma roseira brava ainda cresceu no meu ventre cansado!
A minha utilidade era agora decorativa, mas a vaidade não me falava dos afetos, nem de ventres vazios.
Depois, até disso se esqueceram.
Sou a metáfora do tempo que passa, a solidão da serra, a aridez das pedras.
A velhice esquecida na soleira da porta, como os velhos vendo passar o mundo, os dias, as horas, a vida.
Sou um pedaço de ferro, enferrujado, sem serventia, sou o que resta da memória da lareira, do alimento dos pobres, dos aromas doces e silvestres.
Sou o retrato dos homens perdidos na solidão dos montes!

São Gonçalves
Foto-Dolores Marques
Podíamos falar do que não foi, dos silêncios, da incapacidade de dar, talvez porque nunca se recebeu. 
Como dar o que nunca se teve ? 
É preferível falar do que foi, do que a memória traz de luz, de momentos efémeros de partilha. 
Hoje lembrei -me do dia em que nos levaste a ver o mar. O mar bravio da torreira. Homens e mulheres, bois, redes, peixes a saltitar. Eu tão pequenina tive medo. E tu deste - me a mão ! 
São Gonçalves.

Foto -Camilo Rego.
Do chão de terra queimada, brotam as rosas e os espinhos. Passa o tempo paulatinamente, nos dedos a canseira dos dias, a peregrinação inequívoca de uma vida a colorir paisagens. Palavras, silêncios, gestos pintados à superfície da tela. As presenças e as ausências a percorrer a senda diagonal da cor. Podia ser uma bandeira, podia ser a matriz da beleza da terra numa tarde de verão. O aroma da rosa a perfumar sentimentos, aves a juntarem ao abraço protector da cor. Poderia ser a sombra e a luz ! 

É apenas o símbolo da passagem das estações numa terra de ninguém.

São Gonçalves 

Tela -Tiago Paço.
Sentou -se no sofá do café, o sol da primavera expreitando pela janela, raios solares beijando os traços do rosto, um odor de canela e gengibre perfumam o espaço. Apenas a música de fundo perturba o encantamento da tarde. No espaço do silêncio, a confidência de uma dor solitária. 
O contraste entre a beleza do fim de tarde e a denúncia de um sofrimento à espera de palavras. 
Há dias tão cheio de sombras e de luz, de silêncios e de palavras. 

São Gonçalves.
Densa a paisagem envolta na serenidade esverdeada da floresta. Corpos vivos contemplando a grandeza do universo. Avassaladora esta grandeza, esta alquimia de luz e de sombras abraçando o céu. 
No coração da floresta, a solidão aprazível do azul das paredes ocultando mundos interiores, vidas resguardadas dos ruídos das grandes cidades castradoras. 
Há uma paz indizível, um espaço de recolhimento e pertença. É tão vivo e intenso o brilho da luz, espelho da floresta, na transformação inequívoca da palavra poética. 
São Gonçalves. 
Foto -Dakini.