O silencioso canto das aves migratórias

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segunda-feira, 23 de novembro de 2020


 Sonhou a transformação nas palavras, nos gestos de ternura, na linguagem das manhãs! Sonhou a vida tão simples, tão fugazmente singela.

Com as mãos a escrever o mundo!
A contagiar silêncios e metamorfoses
A transportar para dentro o que de melhor intuia na humanidade. Lia os ensinamentos ancestrais, consultava os oráculos de luz. E na palma das mãos lia a cartografia do assombro.
Porém, os homens carregam todos o mesmo destino!
Lembrava-se, por vezes, de contrariar as rotas, de forjar por dentro a direção da luz.
Eram escassos os momentos de plenitude. Cruzava-se com eles nas páginas de um livro, nos momentos de movimento interior.
Sabia- os fugazes, intensos, verdadeiros.
E só isso bastava para desenhar na palma das mãos a simbologia da liberdade.

domingo, 22 de novembro de 2020


 Desta luz sépia matinal a esperança a rondar os contornos do rosto.

Silêncio!
Só o silêncio acalma a inquietude invisível e nascente.
Recordas as madrugadas em que tudo parecia ter sentido!
A intimidade dos corpos cinzelados num só abraço! A perfeição dos gestos e dos sentidos.
No torpor da alvorada o toque dos dedos, mãos que se afagam na aflição do desejo.
É este o teu momento de abandono!
Ao longe contemplas a velha ponte secular. O deslumbramento contínua intacto no olhar nostálgico.
Da sombra da janela o murmúrio do tempo, fracionado na memória dos gestos!



 Sentia que era demasiado tarde para se cumprir na palavra.

Os deuses encheram o seu olhar de silêncio e de espanto. Durante este tempo, as vozes ressoaram vocábulos incompreensíveis. Sons estranhos a inundar o espaço. O seu olhar procurava a consistência do mundo. A magia das auroras, a plenitude dos crepúsculos.
O mundo tornara- se um lugar pouco frequentavel. Os sonhos desfaleceram lentamente.
Não sabia se era, agora, invisível aos olhos dos homens. A sua angústia era uma lâmina a cortar lentamente a pele e a alma.
Vivia os dias devagar! Ausente!


 Ainda que se multíplicasse em outras vidas, em outras vozes, o corpo era sempre o mesmo. Cansado, extenuado dos dias cinzentos e frios.

Olhava para fora do quarto, através da transparência da janela. Procurava a agitação do mundo que lhe faltava. Por vezes chegavam-lhe sons do exterior. Mas era ali, naquele espaço, que a vida se cumpria.
Procurava nos livros a definição do silêncio. A cidade interior aparecia, então, habitada de palavras e de sons, de imagens de um outro tempo. De outras eras. Vidas carregadas de sentido.
Quantas travessias haveria de realizar para se encontrar? Perguntou-se!


 Fechou instintivamente o olhar ao mundo. Os passos silentes pisavam a aridez do tempo . Os dias desfeitos!

Que diferença faria se um dia desaparecesse no horizonte?
Lembrava- se continuamente das velhas lendas bíblicas. Que força teria acompanhado Job na sua descida ao abismo? Da perda?
Os dias continuados, cinzentos! A dor a espreitar silenciosa, o desânimo a instalar- se no lugar da esperança.
Por dentro o vazio. O labirinto da desesperança a tolher os gestos.
Fugia das multidões na hora de maior angústia. Um fio a conduzir para o lugar do nada.
São duras agora as palavras nos seus dedos consumidos pelo desapego.
No seu interior a cidade é vazia, abandonada a todas as possibilidades.


 Depois da casa vazia sentou- se na última cadeira, sobre a última mesa que restou depois da tempestade. Acendeu um cigarro, lentamente, e aspirou com força a última vaga de desalento.

Na nudez do espaço, expirou o fumo , com vontade de invadir o lugar de si.
Aquele seria o seu último bafo quente a selar a sua passagem.
Silenciou a voz e os gestos. Desenhou na penumbra o último símbolo do desapego.
Estava ali, só, no último confronto com espaço.

Mais tarde, haveria de por a chave pela última vez na porta, haveria de levantar a cabeça e fitando a luz, contemplar a vida sem vestígios de dor ou mágoa.


 Escrevo agora o silêncio do espaço. Viro as costas à casa, uma tremura percorre- me o corpo. As paredes nuas, a nostalgia no olhar. Frio, sinto frio!

O presente estilhaçado conjuntamente com os objetos. Há uma silhueta feminina que insiste na demanda da luz. São tão sombrias as manhãs, nesta terra de nevoeiros longos.
Queria evocar as Deusas de Olimpo. Perséfone, Eurídice!
Queria atravessar o deserto da noite , de mãos dadas com Antígona.
Mas a travessia é longa e o oráculo nada sabe de labirintos.
Por agora, a nostalgia invade o meu corpo, exausto, envelhecido.
As madrugadas claras fazem-se ausentes, apenas um rasgo de luz insiste em brilhar.


 Extravagantes as paisagens que se perdem no profundo oceano dos meus olhos. Mergulho nesse mar. Procuro por mim, pelo que fui, no espaço, no tempo, nas janelas dos meus olhos abertos a uma nova luz...


Sou, agora, este imenso mundo, esta casa , esta rua, a passerelle em tons azul e dourado! Meta de vidas vividas, silhuetas pairando no espaço sideral.

Misturo-me com elas, e mesmo que pareçam sombras distantes, sobrepostas no meu corpo frágil, sei que são apenas memórias de um tempo passado ou vindouro! Por vezes, são também, a escuridão das incertezas, o vaguear das sombras nas noites de insónia.

Outras vezes são figuras presentes, invisiveis, amparando os dias e a vontade de ser mais que apenas matéria percorrendo os anos.

No meu corpo sobrepõe-se a luz, a sombra e o espanto de me rever nelas. Na luz do dia e na escuridão da noite.

Entre a a claridade e a obscuridade caminho, refúgio das cadências temporais. Registo nos passos o desassombro do percurso, no corpo a fragilidade de uma dança contínua com os elementos do universo.

No espelho da alma, o reflexo do oceano, esse mar, esse céu ,esse tom de azul percorrendo as palavras e a vontade de se fundir nelas e ser apenas pensamento a vaguear na força da natureza.

Fluir na claridade das vibrações do cosmo. Ser travessia, ser luz, energia unificada do cosmos!

Rejeitar o cansaço do corpo e o significado das palavras inúteis.

Olhar o horizonte, absorver toda a energia da luz, ser travessia a conduzir os mais secretos anseios!


 Sinto a vertigem do vazio sobre o meu corpo,

Um silêncio de vozes na casa desabitada
o esvaziar dos objectos
dos sentimentos tatuados nos muros!

O vazio que o tempo consumou
a ausência marcada nos sulcos do rosto !

Acordo de madrugada para tocar a maciez da brisa da manhã
o toque do efémero no meu olhar
A musicalidade do som de um relógio que não pára!

Entrego o corpo ao sopro do vento, ao longe uma pomba branca traz no bico uma mensagem de paz.


 Nas deambulações da mente sonhou ser ave a cruzar os céus,corpo liberto do peso dos dias.

Elemento da natureza !
Leveza a transcender o espaço de luz!
Travessia plena num corpo de mulher!

Por momentos alinhava de forma irregular os contornos da tristeza, essa frágil emoção que ecoava nas palavras e nos gestos.
Não entendia, nunca soubera entender a falta de frontalidade daqueles que tinham o dever moral de a ter.
Baixava, por vezes, o olhar, para não ver o desabar das suas crenças. Gostaria que fosse de outra forma, gostaria de entender os desígnios dos Deuses e dos homens.
Carregava no peito dores ancestrais, prantos de outras vidas.
O renascimento teria de começar por ali. Pelo caminho que leva ao encontro da mulher que se livra dos pesos antigos. Os seus e os das mulheres da sua vida.


 Às vezes é tão difícil escrever o desapego. Sentirmo- nos órfãos das coisas que habitaram os nossos dias. Damos voltas às coisas, queremos livrar de nós esse sentimento de pertença. É necessário deixar para trás. Recomeçar, renascer, libertos de tudo. É um processo lento.

A pergunta subsiste: o que fazemos das coisas que foram tão nossas?
Depois, depois há aquelas perdas que realmente fazem o sentido das lágrimas.
Então, levantamos o rosto, faz-se e desfaz- se mais um pedaço de nós.
E a travessia não é mais do que uma lembrança amarga!

São de luz as palavras que surgem agora na ponta dos meus dedos! Ultrapassados os medos, a energia do mundo desce lentamente sobre as mãos. Já atravessei as noites em sobressalto. Perdi- me no meio de tanta obscuridade. As noites vazias, o inominável silêncio. As madrugadas tão longínquas. Nada podia germinar em tão árido pensamento!
O caminho da luz fez-se por dentro do silêncio!
Alma solitária vagueando na noite escura. Tão longo e solitário os trilhos do conhecimento, a energia da lucidez tardia.
Na metáfora da noite rendi o último suspiro.
As mãos abertas, côncavas de esperança, ventre que acolhe a força do universo. O devir da transcendência divina.
São de luz as palavras!