O silencioso canto das aves migratórias

O silencioso canto das aves migratórias

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O que nos permite avançar ainda é poder encontrar pedaços de beleza no meio do lodo dos dias. 

São Gonçalves.
De longe escutámos as nossas vozes 
Tão longamente silenciadas com o barulhar do oceano. ..
De longe abraçámos as nossas dores caladas. ..
De longe. ...

São Gonçalves.
"podia dizer-te que os dias se esqueceram de nascer
mas o orvalho das manhãs não desiste da folha verde
e as águas do rio não se cansam de embalar as barcas"
João Carlos Esteves"

podia dizer-te deste dias cinzentos colados à pele
nesta vontade intransigente de tudo abandonar
do cansaço do corpo,das vozes ausentes

podia dizer-te do medo das sombras
da fragilidade da neblina tocando o meu corpo
das manhãs frias onde acordo ,exausta

mas a pureza da neve equilibrando-se na fragilidade
dos galhos despidos impele-me a avançar.

São Gonçalves.
Sabes de cor a cor do mundo, a cor do sol
da água que mistificada no papel
altera os paradigmas do universo

num bailado de cores vivas
inventas a musicalidade dos gestos
as notas de uma sinfonia
primaveril e eterna

Na tela,as frestas de luz iluminam
a escuridão dos dias cinzentos
a luta das forças internas

um oásis de mundos coloridos
onde pernoitam os desejos mais secretos
a imagem da paz mesclada de azul

um oásis perdido algures na memória!

São Gonçalves.
Inscreve -se no tempo a seiva viva dos dias, a meditação silenciosa das marés, sem medo sente-se no corpo o passar das horas, a continuidade dos gestos. 
Sinto -te presença misteriosa acalentando os dias, afagos de luz no crepúsculo do corpo.
Alinhavo as palavras num poema silencioso, a eterna procura de mim, de ti, de nós. 
A noite aproxima -se e o abraço quente de um solardente embala - me os medos, e os temores.
Não há escuridão nesta terra de fogo e de mar.

São Gonçalves. 
Dueto C/São Gonçalves (2013)

- Aproxima-se a noite e eu contemplo o céu, a imensidão do mundo, e tantas tempestades adormecidas neste céu rasgado de magia. Os temporais acalmaram o desejo, apenas percorro a via-sacra da vida, para que dela renasça mais forte e mais serena.

- Impetuoso o gesto perecido no além. Mereceu tudo e nada lhe foi doado a não ser a dor da partida, sem conhecer a verdade do aquém. Rompe as nuvens com desdém e alcança o mar acetinado onde a partida já foi chegada. O dia já nasceu na noite. Na noite nascerá o dia. Percorre todos os trilhos das baixas marés em absoluto silêncio. Ouve-se agora o som eterno da alvorada.

- Encosto-me ao parapeito do tempo. O meu corpo abriga-se nas encostas e a alma cede ao desejo de mudança. Os cansaços dissipam-se nesta grandeza infinita e as vozes calam-se quando a brisa do vento me acaricia o rosto.

- Correm rios no teu corpo. Descansa agora, enquanto o sono não vem. Já o toque às almas aconteceu quando o sol se pôs. Nada se afigura distante. Só o Universo é grato pela luminosidade crescente em cada corrente que trespassa o véu que te enlaça.

- Voluntário o desejo de transformação que se aninha nas dobras dos dias. Invento e reinvento amanhãs promissores. A vida decorre sempre entre as madrugadas e as noites que se consomem pausadamente, sem pressas.

- Se todas as manhãs fossem só tuas, serias o tempo de mudança a madrugar nos teus olhos. Mas quem sou eu, se não uma força a caminhar contra o tempo? Se conseguíssemos acomodar o tempo no nosso pequeno mundo, já teríamos dado graças a Deus por termos em nossas mãos, o mundo.

-A paz como alimento das noites é o consolo que ainda me resta neste tempo incerto. Na minha pequenez colho do tempo o que ele tem de mais belo para me oferecer. Nem sempre me afasto das sombras, nem sempre me protejo dos temporais. O céu ora se tinge de negro, ora se aclara de luz.

- E nesse meio tempo, as luzes acendem-se em todos becos onde te escondes. Será sempre um dia ou uma noite a menos nos nossos sonhos. Sabias de um tempo em que se colhiam orquídeas brancas nos matagais?

- Nesta encosta acompanho os movimentos que transcendem o espaço e por vezes se elevam acima das luzes frágeis da cidade. Apenas as clareiras que se avistam
num horizonte a perder de vista, me trazem a luz tão desejada nas noites de procura.

- Existem credos em todas as orações. Crer num espaço inédito e criar nele um campo de visão obrigatória para lá, é ter fé na nossa fé. A minha cidade sabe de todos os becos escuros e sombrios, e eu nada sei da cidade. Só vejo daqui as luzes ainda reflectidas nas águas do Tejo.

São Gonçaves vs Epifania(DM)

De vermelho se tinge o céu 
Labaredas de um mundo a queimar o corpo, o fé dos homens rasgando o horizonte. 
De templos eregidos em silêncio, de brumas aparcando no lugar da solidão, de dias, de noites,de orações suplícando a paz na terra dos homens. 

De mundo se enchem os teus olhos cansados, de vida e renascimento escondidos, num crepúsculo ardente. 

Crês, acreditas e continuas nas sendas de um céu de esperança.

São Gonçalves.