O silencioso canto das aves migratórias
domingo, 5 de março de 2023
Nasceu numa madrugada de inverno, rasgou o ventre como quem rasga um pedaço de terra endurecida pelas geadas. Não houve nem gritos, nem mulheres a correr pela casa. Apenas silêncio, o silêncio das mulheres que se transfiguram no tempo da gestação. Mulheres a formar o círculo da maternidade silenciosa. Até os homens estavam ausentes. Premonição do devir.Seriam sós!
Ela e a mãe, a árvore e a terra!
A ganhar raízes, a expandir-se em profundidade, sombra e luz.
Tinha tanta sede de absoluto!
Tanta fome de plenitude.
Ah! Como compreendia Persofone! Essa deusa que dividia as estações entre a escuridão e a claridade. Entre as entranhas da terra e a luminosidade do sol.
São Gonçalves
Quanto tempo precisamos para voltar ao lugar onde o corpo se fez vida? Onde fomos inteiros na entrega, na dor e no propósito que nos foi concedido?Quantos caminhos teremos que palmilhar para encontrar a paz, o reencontro com o todo?
Quanto de nos terá de morrer para renascermos plenos, curados?
Poderá demorar um dia, um ano, uma década! Quem sabe uma vida!
Assim, quando de novo, a coragem despertar, abraçaremos, sentiremos a leveza das emoções, a memória antiga aproximar-se, tomar o corpo e o espírito, e a magia da renovação se fará presente.
São Gonçalves
" o tempo esse grande escultor "
Terá sido noutro tempo, noutra vida. Sementes lançadas à terra
Numa primavera distante. Mulher/ menina a semear os frutos do devir!
Terão os deuses do Olimpo escrito nas cartas do destino a epopeia da distância.
Então a menina, teceu dia a dia a manta da esperança.
Fez e desfez os nós do desencanto.
Secaram- se os olhos na urdidura da espera.
Menina de olhar sonhador!
O tempo esculpiu no corpo das mulheres as batalhas de uma vida. Os naufrágios dos homens!
Um dia, Itaca torna- se mais próxima.
Será que regressa? Ao sonho de criança. À essência de mulher.
Aos abraços tantas vezes desejados na longas noites de insónia.
São Gonçalves
Regresso da sombra lentamente.
Na simbologia da noite o medo de me perder no pesadelo do corpo exausto.
Corpo colocado à margem do desejo ,dividido entre a dor e prazer, entre a carne e o espírito, dicotomia do corpo e da alma.
Do universo recebo a força criadora das madrugadas. A luz do mundo a equilibrar a exuberância das trevas.
Seria tão fácil deixar- se seduzir pelo abismo.
Há em cada mulher uma força invisível de luz e de sombra, de sagrado e de profano.
São Gonçalves
Foto- Edite Melo
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