O silencioso canto das aves migratórias

O silencioso canto das aves migratórias

segunda-feira, 18 de setembro de 2023


 ... cresce no silêncio das madrugadas uma flor de esperança.

Serena a luz de outono iluminando as encruzilhadas da vida.

Murmúrio do sons do mundo,
abraço acolhedor no entardecer.
Vozes silentes, gestos ensaiando a textura da pele.

Tempo que se deseja lento na busca da plenitude...

São Gonçalves


 Tão magistralmente só abraço o universo.


O dia, a noite
A justaposição do vazio e da plenitude.
Visto as cores marmorizadas de outono, o misterioso azul-cobalto.

Da terra extraio o ouro dos deuses e adentro, de tronco erguido, mais uma estação.

São Gonçalves.


 Partem as aves em Setembro

parte o ombro amigo
sentimento inacabado

cortam-se as raízes das árvores
ceifa-se o trigo
colhe-se o vinho maduro

partem as aves em Setembro
a sombra amiga e distante
o ventre já seco

partem os sonhos e os abraços
fica a terra vazia
no pousio esperando o inverno

e a colheita fugaz das estrelas
luzes cintilantes
albergando a memória dos gestos

enchem-se as ânforas e os celeiros
com o mel das palavras
poema seguro no bico das aves....

São Gonçalves.


 As palavras serão sempre escassas para te dizer da saudade. É quase noite, quase Outono. As cores vibram, o mar embala os sentidos. Oiço o murmúrio da tua voz e espero

É quase setembro!

Contemplo os reflexos da luz crepuscular. É de ametista a superfície das marés.
O sol prepara a despedida da longa jornada.

É quase Setembro!
Quase outono na estação e na vida.

Oiço na voz do vento a linguagem simbólica da passagem do tempo. Do teu tempo, do meu tempo. A narrativa de todas as batalhas, das marcas dos anos desenhadas no rosto.

Amanhã e depois de amanhã a luz será mais intensa.

São Gonçalves.

Foto- Edite Melo - Contemporary Art


 Isolas-te do mundo e engoles, em silêncio, o gosto amargo das ausências e das palavras que nunca foram ditas.


Sentas- te nas margens de um rio e deixas que a correnteza te abrace o corpo e os sonhos.

Amas e esperas o eco dos sentimentos dispersos.

E as águas, tão conhecedoras dos medos e dos anseios dos homens, murmuram- te um mantra de esperança.

São Gonçalves. 


 Trago nas mãos o toque da nortada das manhãs, a calmaria das marés crepusculares.

E na pele, feixes de luz, um desejo azul lunar.
A claridade de um mar de prata, infinito.

Espero-te na silenciosa aurora
Quando o leito desfeito ainda guarda o odor da pele.
O odor das maresias mais intensas.

São Gonçalves. 


 Nada direi das palavras, nem dos silêncios dos homens! Aquieto, por instantes, o espírito ao rumor do planar das aves e ao doce murmúrio das águas!


Carece o mundo de ternura, de momentos de contemplação, sem dor, sem inquietude!

E eu que tanto desejei estes momentos lunares, inundo o olhar de horizonte! Sacio a sede de paz num abraço aconchegante de lonjura, bebo da brisa crepuscular e sinto-me ave liberta!

São Gonçalves.