O silencioso canto das aves migratórias

O silencioso canto das aves migratórias

domingo, 5 de março de 2023


 Abraço o lençol oceânico na longitude do corpo.


As palavras serão sempre escassas para te dizer da saudade. É quase noite, quase Outono. As cores vibram, o mar embala os sentidos. Oiço o murmúrio da tua voz. O mundo aquietou-se ao som das vagas mansas.
É quase Setembro!
Contemplo os reflexos da luz crepuscular. É de ametista a superfície das marés.
O sol prepara a despedida da longa jornada.
É quase Setembro
Oiço na voz do silêncio a linguagem simbólica da passagem do tempo

Amanhã resistirás à força de mais uma batalha!

Foto Edite Melo

São Gonçalves


 Eleva-se a consciência ao ponto mais alto da transcendência.


Sente- se a vibração do corpo, os pensamentos a formar uma espiral azul. A geogragia de cidades misteriosas envoltas em brumas. Pequenos espaços de luz a iluminar a opacidade dos dias.
Ainda que o caminho seja longo, ainda que o corpo não esteja completamente liberto das amarras do passado, sente- se a leveza dos gestos, janelas abertas ao espaço onde se conjuga a cor e o verbo. A transcendência e a contingência. A maturidade e a sabedoria.
Entre uma e outra, revela- se a simbologia do devir. O apaziguamento dos sentidos. É este o momento em que te sentes inteira. Presença divina exaltando o silêncio.

Profundo o momento de descoberta!

São Gonçalves
Pintura- Edite Melo


 A vida é feita de encontros e desencontros

De partidas e chegadas
Caminhos que se percorrem
De inexplicáveis encruzilhadas!

De toques subtis
De duros golpes.

A vida é feita de muitas forças
De grandes fraquezas.
Espaços de silêncio
De caminhos de palavras.

A vida é feita de muitas sombras
De metamorfoses procurando a luz.

São Gonçalves


 Tão silencioso o espaço cristalizado da emoção.

O poder transformador da cor e do traço.
O assombro estrelar da luz redentora das manhãs. A concavidade luminosa a abraçar a execividade dos dias.
Lugares desabitados onde se misturam os sons do mundo e da natureza.

Das brumas cresce a memória dos rios.

Com as palavras se tecem os nós da desesperança. Sombras a querer vingar nos matizes mais sombrios.
Simulado na urdidura da tela a claridade enigmática das águas cristalinas dos rios, dos oceanos virgens.

Crescem no espaço as constelações.

Andrómeda, cassiopeia, sagitarius. Via láctea.
E no tracejado da matéria o deslumbramento líquido das marés, das auroras boreais. O desassombro da claridade unificadora.

São Gonçalves
Pintura- Edite Melo


 A esperança desvenda-se aos poucos na grandiosa encruzilhada da vida.


Na fragilidade secular de uma flor.
Refazem-se os passos em caminhos outrora palmilhados. No silêncio das horas vazias. O coração despede--se das mágoas antigas. Reconhece apenas os templos da verdadeira entrega.

Difíceis de entender os mistérios que nos afastam dos caminhos da infância, onde a serenidade era o poiso dos pássaros na Primavera. A maturidade traz agora um outro gosto. A sabedoria das nascentes preenche os recantos por onde deslizam os caudais da vida.

Será preciso entender os deuses que nos seguram as mãos nas horas sombrias. Escutá- los! Abraçar as mensagens enigmáticas que nos chegam ao coração.

Então, a sabedoria sagrar-se-á nas tessituras dos dias. Na filigrana dos sentimentos de procura. Presença constante a repassar a fragilidade do corpo.

Mesmo que a memória seja apenas um aroma adocicado. Flor silvestre dos outeiros. Corpo frágil enfrentando as tempestades. Numa eterna procura de abandono e sublimação.

São Gonçalves


 Chegaram devagar no silêncio de um entardecer longínquo.

Chegaram simples, imaturas, traziam com elas a vida vivida, o mágico timbrado dos sinos da igreja.

Falavam de saudade, de ternura, falavam de memórias e de segredos guardados.

Foram longos os caminhos por onde se perderam.
Foram a nascente de um rio onde corriam histórias antigas, amores inacabados, coragens vencidas.
Foram a alma e a cor a transbordar poesia. Foram a coragem de quebrar barreiras e medos.
Surgiram do mais profundo abismo.
Foram fiapos de luz a iluminar o útero fecundo e acolhedor do poema.

De onde brotava a nascente das palavras? Questionava-se o poeta...

Nasciam dessa inquietude imensurável de descrever o invisível, o intocável.
Nessa vontade imensa de criar beleza em terrenos férteis de desalento e desencanto.

Fizeram caminho e caminhada, nascente, rio e enseada.
Fizeram-se mundo!
Deram voz às sombras mais negras e opacas.

Foram, sede de saber, saciada!

São Gonçalves.

Foto -Mafalda Soares


 Tarde, aprendemos o valor do silêncio. O lugar onde tudo clareia, o espaço da unidade. Olhamos de frente a angústia pesando nos ombros, a verdadeira profundidade do abismo.


Por vezes...

É um filho que tarda
Uma dor na alma, a voz das sombras do passado, e daquelas que se agigantam no afã dos dias. São tantas as dores As minhas, as do mundo e as que carregamos escondidas dos olhares dos outros.

Tentamos contemplar o infinito...

Falar ao coração, palavras simples, verdadeiras, apaziguadoras. São tão poucas as coisas que nos protegem dos obstáculos do mundo. Ameaçadora a realidade, impõe-se na constante procura de sentido.

Os dias plenos de silêncio

O murmúrio das vozes distantes, sempre tão ausentes. Murmurantes de significado. Buscamos o sentido da vida. Habitáculo do transcendente.
Ressonâncias transcendentes da alma
Transversal o desejo de plenitude.

Em silêncio...

Contemplamos horizontes, mutações internas. Metamorfoses.
A vida a tatuar as cores da real presença na transmutação acobreada dos dias.

São Gonçalves