O silencioso canto das aves migratórias

O silencioso canto das aves migratórias

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Dá -me alguma coisa que não morra 
A sensualidade do gesto que toca e deixa na pele o rasto de luz a pigmentação do amor derradeiro. 
Dá -me o fogo e a paixão 
A vontade de viver com todos os sentidos despertos. 
A imensidão do mar, a cor dos teus olhos. 
Dá -me a chave com que possa abrir o cofre onde guardas os enigmas da fealdade do mundo e nele possa depositar o meu segredo de mulher.

São Gonçalves.
Às vezes procuramos palavras que definam
A solidão que nos consome
No meio das gentes
Este sobressalto surdo
Do abismo que nos atrai 
Deste prantear
Os dias
Sem lágrimas
Sem o sabor do sal
Nos lábios.
Apenas o deserto
De palavras.
São Gonçalves.

domingo, 12 de abril de 2015

Abril chegando na luz de uma frágil flor
a solidão da terra abrindo-se
em flor de renascimentos
A vida brotando no coração da terra 
endurecida pelo inverno
como uma lágrima
brotando de um rosto
rugoso da vida!
Abril,milagre de luz
sensualidade majestosa
no ventre da primavera!
São Gonçalves.
Germinam cidades rubras no coração do sol
magnas efeverscentes olhando o universo
e as sementes do homens esquecidos
na podridão do mundo
Não há árvores , nem seiva , nem água
não há mundos subtarraneos onde se escondem
as almas perdidas na escuridão
apenas luz, cor, vida
e cidades de labaredas quentes
É esta a força dos elementos
que acorda os homens
a forte irradiação da luz
São esta as cidades gravitando
no deserto da imaginação
São Gonçalves.
"Filha sou do mar
que me trouxe à praia sentada nas ondas
vestida de algas e anémonas.
O vento é o meu corpo
que se une ao rochedo maior
numa noite de maré vaza."
Lilia Tavares

De ondas te vestes nas manhãs claras
a poesia da maresia branca
nos cabelos ondulantes, poemas ondulando
filhos do vento, nascidos de ti.

São Gonçalves.
De que resta do tempo nas linhas do corpo
nesse caudal de dores invisíveis
tão vincadas nas rugas do rosto
dessas amarguras sem tempo
nascidas de um ventre,tantas vezes violado
com força,sem medo nem preconceito.

Do tempo em que as hemorragias
eram caudais vivos a jorrar do teu corpo
na violência da idade
apenas travadas na fecundação da vida.

De que resta desses homens que carregaste no ventre
e no colo, desses seres que te roubaram as noites
a calma dos dias,o sossego do corpo.

Esses que te vendem,que te batem,que te exploram
debaixo de poderes sem nome,de culturas seculares
esquecendo o calor do ventre,a meiguice do teu colo.

De que resta de ti,de mim,da nossa condição
dessa força emanada das mais profundas crenças
da matriarca do mundo...

Resta apenas o silêncio e a incompreensão
a dor e a revolta dos dias da desumanização!

São Gonçalves
 —

Paz

Na quietude dos dias sem gloria
na serenidade dos rios 
ouço a tua voz
muda de desejos
calada a cidade do desespero
nas madrugadas silentes
desenhadas nos contornos
da minha pele.

A musicalidade silente,sensivel
do cantar do vento
uma melodia de ternura
no repouso das labutas !

Peço apenas qualquer coisa
do nada imenso que me transforma
em tudo!

E assim retomo a paz em círculos de harmonia
e meditação.

São Gonçalves.