O silencioso canto das aves migratórias

O silencioso canto das aves migratórias

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Rendo-me a evidencia das sombras e à passagem do tempo,numa postura curvada diante da beleza imensa,do mundo ao redor.

Pensei um dia ouvir uma musica timbrada ao longe,notas de um compositor divino que nas noites sem lua me afagava os medos e os anseios.

Belo era o mundo no qual eu fingia acreditar,bela a luz que espelhava as paredes vazias,onde eu pensava ver o mar.

Na passagem das horas,os sons transfiguravam-se ,ora calmos ,ora violentos,e eu for...
a sempre a sombra de um corpo que gritava liberdade.

Podia saltar ,podia levantar-me e deixar para trás o torpor dos sentidos e vaguear nas cordas de uma viola,mas eu fora sempre a imagem silenciosa deixando a musicalidade das palavras entrar e iluminar os cantos do corpo escondido nas entrelinhas de um poema.

Fugazes foram os dias em que liberta de tudo iluminei as crateras que se abriram a meus pés...
Talvez eu me perca na fragilidade transparente

das curvas ,no emaranhado frágil das emoções

e no tempo que se desfaz em mil caminhos

na sensatez do momento , na ternura tatuada
...

nos gestos entrelaçados nos silêncios

fragmentos dispersos,sombras da primavera

já gastas no auge do verão....

Talvez eu ainda renasça em flor

na próxima estação....

São Gonçalves.
Absurdo o silêncio que se abate sobre o rosto...sobre o corpo...sobre a vida resgatada a um momento de loucura.

Avassalador o momento que descai na monotonia vaga...na constante certeza de ser só por entre a sombra e a cor.

Por entre estilhaços de espelhos me deito,esqueço de tudo,

do mundo gritando silêncios....de silêncios gritando vontades de renascer de novo..
...

.numa nova vida...numa nova cor...talvez dourada...viva sim...viva de luz...de desejo...

salpicada de tons rubros....sangue fervilhando nos recantos de uma nova paixão.

Mas absurdo é o momento de devaneio

ou simples vontade de fechar os olhos e sonhar....
"Gostava tanto de ser como tu"


Dizias-me tu do fundo da tua dor silenciosa e muda que te arrasta o corpo e alma para o fundo.

Ser como eu,é trazer o mundo nas mãos sem saber muitas vezes como tocá-lo,é trazer a tua dor sem encontrar palavras para te dizer o consolo.

...
Não é fácil ser assim,carregar no colo as vidas de quem amamos,e ser silêncio e ausência.

O desprendimento de tudo não se obtém num dia,nem em semanas,nem em anos...

Sentir na alma o vazio de tudo e continuar.Continuar o curso do rio ,ser a árvore que cresce nas margens,ausente na sua presença que atravessa as estações e os anos.

Ver os barcos partir e chegar sem lhes tocar...apenas observar....e amar cada gesto...cada palavra...cada silêncio...cada ausência.

Nas sombras do tempo não questionar as vitórias nem as derrotas...atravessar os dias como se atravessa um leito de águas calmas e serenas que esconde todo um mundo no seu interior.

Ser como eu é ser muitas mais vezes silêncio que abarca o universo interior...

Se como eu é trazer no peito um mundo e apenas parecer uma pequena ilha.....

São Gonçalves
Percorro a história de um tempo antigo
barcos navegando nas enseadas da memória
no sentido crepúsculo dourado
na infinita distancia entre o céu
...
o mar e a terra.
A cidade que me viu nascer
adormece num lençol branco
e as gaivotas ainda planam
entre o infinito horizonte
e a paisagem lagunar...
Brancas nas madrugadas
são douradas as lezirias
neste fim de tarde
e o silêncio instala-se
nos caudais serenos da ria.
A cidade adormece,a brisa fina
é agora um véu cobrindo os sons
ocultando os medos.
Já não me pertence
os caudais que me viram nascer
são portos d'abrigo
esperando novas rotas
na densa bruma
da memória.


São Gonçalves.
"Um sonho de um voo que atravessa a mente...


e depois reencontra-se a voar...

e segue o curso do rio..."

...
António Mattozzi.



Seguir com o olhar a ave que voa a horizonte,procurar-se na litania da horas que se contam pelos dedos e voltar sempre ao mesmo lugar.

Ao lugar de todos os possíveis reencontros,nas manhãs vestidas de brisa fina,encobrindo a paisagem que encanta o olhar.

Mesmo assim,belo o madrugar nestas paragens,onde alma nasceu.

Este não seria o paraiso,nem o palco de todas as metáforas,arrancadas a um mundo imaginário.

Este seria apenas o berço ,a canção de embalar ,sussurrada ao ouvido nas primeiras manhãs de primavera.

Impetuosa a vontade de seguir o curso de um rio desconhecido e voar

Rasgar o céu,quebrar as vozes na transparencia do nevoeiro ,na incandescente ternura que assombra os sonhos de partir.

Partir,seria o verbo incondicional,a vontade lógica de acordar na lonjura de um porto desconhecido.

Entre as margens de um rio e as águas estagnadas há uma luz que brilha no coração da vontade impetuosa de vencer,esquecer os preconceitos,a raiva escondida ,uma vontade crua renascente na dureza da terra alongada nas correntes do pensamento .A sombra será sempre essa vontade de voltar ao lugar do desencanto,as águas estagnadas da memoria.

Recuar no tempo não será nunca a solução.

Apesar da beleza intrínseca e surreal,a luz que brilha a horizonte ainda se impõe,carrega nela a vontade de seguir em frente...

São Gonçalves.
foto-Firman Hananda Boedihardjo

Estou sempre por ai...por aqui...entre a distancia e a proximidade...entre um abraço e a saudade...

São Gonçalves.