O silencioso canto das aves migratórias

O silencioso canto das aves migratórias

domingo, 22 de novembro de 2020


 Nenhuma palavra traduz o vazio dos homens e das cidades. Ruas cinzentas, portos de pedra a acolher a solidão das gentes .

A batalha faz-se por dentro
Braços erguidos incendiando as noites
Laminas afiadas a rasgar o pensamento
Estendes as mãos! O teu olhar abarca o horizonte, o corpo acolhe o embate da tormenta, a cegueira noturna dos desesperados.
Em cada porto há uma palavra tua, por vezes sombria, por vezes luminosa
A descrição do paraíso perdido.
A contagem do tempo no movimento pendular.
O poema a saber ao vinho que resta dos copos
À saliva das mulheres!
Silaba a silaba
Verso a verso
Desconstróis a palavra e o silêncio
São invisíveis as metáforas da saudade
“manhãs a bater contra o poema”
A dilaceração do pensamento, a febre combativa do vazio!
A batalha feroz com a normatividade de tudo, a estrutura das ideias.
Dizes que voltas ao significado da palavra, à semântica da linguagem primordial
Num momento eterno
Inauguras” o combate até à morte do silêncio.”


 Ainda que o tempo se faça curto e as noites iluminadas, ainda que a tua voz seja um oásis no deserto dos dias. Ainda que eu te espere no silêncio branco das manhãs!

Ainda que a tua silhueta seja ainda um esboço estático ao longe!
Resta a mão estendida afagando os medos!
Resta o que somos na memória da distância!


 Na solidão do quarto procurava as palavras

A conjugação perfeita da sintaxe
Para dizer do seu mundo
Para aclarar sombras
Dissipar medos
A explicação primordial do seu caos interior!

Não inventava nada
Ali, tudo permanecia quieto e transparente
O que fora, o que perdera
O que amara e como amara
A solidão das cidades revisitadas, cinzentas e frias
A dor da não pertença, da sublime ausência!

A metáfora do poema desvendava-a ao mundo
Sem pudor, sem preconceito!


 Deste lado da fronteira a claridade de um novo amanhecer.

Nas minhas mãos a palavra a desafiar os sentidos!
Oblíquos os gestos, o esculpir da pedra mármore no meu rosto. A sombra do medo no espelho, é de luz o desígnio do gesto. Escultor de madrugadas insistes no modelo da perfeição. O poema a nascer nos teus olhos.
Sigo o caminho da luz!

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Não é de inquietação as luz dos meus dias
esta claridade crescente na menina dos meus olhos 
este acordar devagar nas madrugadas 

despe-se em mim todas as sombras
gestos inúteis
com que tatuei os silêncios

o livro que agora escrevo é uma metáfora de vida
o silêncio já não tem nome nem morada
e eu apenas clamo a semântica da liberdade

esquecidas as vozes cortantes de ironia
finjo que não sei o nome das coisas
e das palavras interditas

desatei todas as amarras
essa amálgama de silêncios incertos
e só por isso valeu a pena

o caminho das palavras
num grito libertador e poético.
O corpo pesado, longos sãos os caminhos que te podem levar ao verdadeiro sentimento de plenitude e serenidade...as memórias são por vezes um traço, ora negro, ora claro; o espírito revela -se, espraiando-se num planalto de luz e sombra. A exuberância do azul acalma os temores, os gestos em decadência. Contemplas a luz do sol, nessa manhã primaveril, sentes a vida a tomar um novo brilho, um novo sentido, porque é de luz que inundas os olhos cansados de tanta escuridão.

Na solidão do quarto procurava as palavras
A conjugação perfeita da sintaxe
Para dizer do seu mundo
Para aclarar sombras
Dissipar medos
A explicação primordial do seu caos interior!

Não inventava nada
Ali, tudo permanecia quieto e transparente
O que fora, o que perdera
O que amara e como amara
A solidão das cidades revisitadas, cinzentas e frias
A dor da não pertença, da sublime ausência!

A metáfora do poema desvendava-a ao mundo
Sem pudor, sem preconceito!